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Eles te pegaram também de Futhi Ntshingila

há 2 horas
4 min de leitura

Quando o passado não permite esquecer


Minha nota: ★★★★☆

Autora: Futhi Ntshingila

Gênero: Romance / Literatura sul-africana

Editora: Dublinense

Páginas: 224


Ideal para: quem gosta de romances históricos, literatura africana, narrativas sobre memória, racismo, apartheid e relações humanas.


Resumo: Entre memória e culpa, uma enfermeira negra e um ex-policial revisitam as feridas do apartheid e os caminhos possíveis da reparação no país.


Há livros que nos convidam a conhecer uma história. Outros nos colocam diante de perguntas que nem sempre estamos preparados para responder. Eles te pegaram também, da escritora sul-africana Futhi Ntshingila, pertence à segunda categoria. É uma leitura que nos conduz por um passado doloroso, mas, principalmente, nos faz pensar sobre o que acontece quando as pessoas que sofreram as consequências da violência precisam conviver com aqueles que fizeram parte dela.


A história nos apresenta Hans, um ex-policial que vive em uma casa de repouso em Joanesburgo. Já idoso, ele carrega as lembranças de uma trajetória marcada pela violência e pelos crimes que cometeu a serviço do governo durante o apartheid. Um passado que, embora tenha ficado para trás no calendário, continua muito presente em sua consciência.


É nesse cenário que conhecemos Zoe Zondi, uma enfermeira negra responsável por cuidar dele. Filha de ativistas, Zoe cresceu cercada pelas marcas da desigualdade, do racismo e das consequências de um sistema que atravessou gerações. Sua história familiar também é uma história de resistência, de mulheres que viveram em um país onde ser negro significava enfrentar diariamente diferentes formas de violência.


A aproximação entre os dois acontece por meio das conversas, das lembranças e das histórias que vão sendo compartilhadas. Mas existe algo muito maior nesse encontro: de um lado, um homem que participou ativamente da opressão; do outro, uma mulher cuja própria existência e história familiar carregam as consequências desse sistema.


E é justamente aí que a narrativa ganha força.

O que mais me interessou nessa construção foi perceber como Futhi Ntshingila trabalha as diferentes perspectivas sobre um mesmo passado. Não estamos diante de uma história que simplesmente coloca um homem arrependido e uma mulher disposta a ouvi-lo. Existe uma tensão muito maior nessa relação, porque a memória não pertence a apenas um dos lados.


Hans precisa lidar com aquilo que fez, enquanto Zoe carrega histórias que não começaram nela, mas que também fazem parte de quem ela é. Suas lembranças familiares nos aproximam de uma África do Sul marcada por profundas desigualdades, pela segregação racial e pela luta de pessoas que precisaram resistir para continuar existindo.


E aqui faço uma pausa para falar sobre algo que considero fundamental nessa leitura: o apartheid.

Para quem não está familiarizado com a história sul-africana, o apartheid foi um regime institucionalizado de segregação racial que vigorou oficialmente entre 1948 e 1994. Durante décadas, a população negra foi submetida a leis que restringiam sua circulação, seus direitos, seu acesso à educação, à moradia e a tantos outros espaços da sociedade. Não estamos falando de um passado distante e desconectado do presente, mas de uma estrutura cujas consequências continuam atravessando a vida de milhões de pessoas.


A autora consegue trazer essa dimensão histórica para dentro de uma narrativa profundamente humana. A história de Hans e Zoe não é apenas sobre duas pessoas que se encontram em uma casa de repouso. É também sobre um país que precisa olhar para suas feridas, reconhecer suas responsabilidades e compreender que reconstruir uma sociedade exige muito mais do que simplesmente virar uma página.


Outro aspecto que me chamou a atenção é a maneira como o livro aborda a culpa e a possibilidade de redenção. Até que ponto o arrependimento de alguém pode reparar o sofrimento que provocou? Uma confissão é suficiente para aliviar uma consciência? E, principalmente, quem tem o direito de conceder perdão?


São perguntas difíceis, e gosto quando um livro não tenta entregar respostas prontas.

Acredito que um dos méritos de Futhi Ntshingila seja justamente não transformar essa discussão em uma narrativa simplista. O sofrimento das vítimas não desaparece porque o agressor envelheceu, porque está arrependido ou porque finalmente decidiu falar sobre seus crimes. Existe uma diferença enorme entre reconhecer a própria responsabilidade e reparar aquilo que foi destruído.


Também gostei da maneira como a autora amplia a narrativa por meio das diferentes vozes e memórias. As histórias familiares de Zoe dão profundidade ao romance e nos lembram de que a História, aquela que tantas vezes encontramos nos livros didáticos, também é feita de vidas comuns, de mulheres, de famílias, de afetos interrompidos e de resistências silenciosas.

A escrita tem uma delicadeza interessante, especialmente quando trata de assuntos tão duros. É uma leitura que flui, mas isso não significa que seja leve. Pelo contrário, algumas questões permanecem conosco mesmo depois de fechar o livro.


Talvez tenha sentido falta de um aprofundamento maior em determinados momentos da relação entre os personagens e de algumas questões que a narrativa apresenta, mas que poderiam ter recebido ainda mais espaço. Ainda assim, isso não diminuiu a importância da experiência de leitura.


Terminei Eles te pegaram também pensando em como a memória é fundamental para qualquer possibilidade de transformação. Não existe reconstrução verdadeira quando se tenta apagar o que aconteceu. Não existe justiça quando a dor de quem sofreu é colocada em segundo plano para preservar o conforto de quem causou o sofrimento.


E talvez seja essa a reflexão que levo comigo: o passado não pode ser desfeito, mas precisa ser reconhecido. Porque esquecer não é o mesmo que superar, e perdoar nunca deveria ser uma obrigação imposta a quem já precisou sobreviver à violência.


Futhi Ntshingila entrega um romance que merece ser lido, especialmente por quem deseja conhecer mais da literatura africana contemporânea e encontrar histórias que ultrapassam as fronteiras geográficas para conversar diretamente com questões muito presentes em nossa própria sociedade.


Uma leitura sobre memória, responsabilidade, racismo e humanidade. Quatro estrelas e uma boa quantidade de reflexões para levar comigo.


O livro está disponível no Nosso Cantinho da Amazon, e cada compra por lá também fortalece o trabalho independente do blog. :)

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