Resenha Coisa de rico - Michel Alcoforado
- 10 de fev.
- 3 min de leitura
Atualizado: há 2 dias

O espelho curioso da nossa cultura de distinção
Minha nota: ★★★★☆ 🖤
Autor: Michel Alcoforado
Gênero: Não ficção / Antropologia cultural
Editora: Todavia
Páginas: 240
Ideal para: quem ama pensar o Brasil de dentro pra fora, refletir sobre identidade, status social e como nós todos, ricos, aspirantes e “classe média” jogamos esse jogo de espelhos sociais.
Antes de começar… “Coisa de Rico não é um ‘manual de ostentação’: é um retrato antropológico que te põe na roda, fazendo você perguntar quem somos quando olhamos para o outro e pensamos: ‘ah, esse sim é rico’.”
Sentar pra ler Coisa de Rico é entrar num salão cheio de espelhos e descobrir que a maioria das pessoas está ali não pra dançar, mas pra se observar e ser observada. Michel Alcoforado, antropólogo carioca que passou mais de quinze anos estudando as elites brasileiras (resultado da sua tese de doutorado), constrói uma narrativa que é ao mesmo tempo engraçada, crítica e reveladora do que realmente significa ser “rico” no Brasil hoje.
O ponto de partida do livro é simples, mas provocador: no Brasil, riqueza é relacional sempre há alguém “mais rico”, então ninguém se enxerga de fato como rico. A riqueza vira um espelho infinito, e a busca por reconhecimento passa por uma série de códigos sociais que vão muito além do saldo na conta bancária.
Alcoforado nos apresenta personagens tão curiosos quanto reveladores. Tem o casal emergente da Barra da Tijuca que viaja para Miami pra demonstrar seu novo status; a herdeira que vive na Suíça e circula com discrição calculada; e embaixadores que se ressentem das mudanças no Itamaraty. Cada encontro não é só um retrato de consumo é uma aula de como a identidade social se constrói em símbolos, ritmos e performances do dia a dia.
O autor vai além de citar marcas ou objetos caros. Ele mergulha na chamada “operação da diferença”: como os ricos tradicionais ou novos constroem distinções por meio da linguagem, da maneira de vestir, do tempo que ocupam (ou aparentam ocupar) e dos lugares que frequentam. O que me fisgou foi perceber que, pra eles, estar ocupado virou sinônimo de relevância, enquanto o ócio ostentoso ecoa status tanto quanto um relógio de grife.
O livro não é só sociológico em vários momentos é divertido, numa ironia esperta que nos lembra porque antropologia bem escrita pode ser tão cativante quanto uma boa novela. Mas também é profundo. Alcoforado lança um olhar crítico não só sobre os ricos, mas sobre todos nós que, de uma forma ou de outra, internalizamos e reproduzimos esses códigos de valor. Ao largo das 240 páginas, ele desmonta o mito de que riqueza é apenas números e nos mostra que ela é antes de tudo um jogo simbólico.
Por que quatro estrelas? Porque Coisa de Rico é instigante, provocador e relevante, mas em alguns trechos a análise pode parecer um pouco dispers, o que, para mim, não diminuiu o prazer da leitura, mas deixou aquela sensação de que poderia ter ido ainda mais fundo em certas reflexões. Ainda assim, é um dos meus favoritos de 2025, e um livro que recomendo com entusiasmo pra quem curte pensar a sociedade brasileira para além das aparências.
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