Resenha Os homens explicam tudo para mim de Rebecca Solnit
- Mih Moraes

- 14 de jan.
- 2 min de leitura

O que eles ainda não te explicaram: por que Os homens explicam tudo para mim merece sua atenção
Minha nota: ★★★★☆
Autor: Rebecca Solnit
Gênero: Ensaios / Feminismo / não-ficção
Editora: Haymarket Books (orig.) / várias edições traduzidas no Brasil
Páginas: ~130 (edição padrão)
Ideal para: quem quer entender o cerne das experiências femininas no mundo contemporâneo, desconstruir noções preconcebidas sobre conhecimento, voz e poder e revisitar o feminismo com olhar afiado.
Antes de começar… “Quando pensamos sobre o que significa ser ouvida, às vezes descobrimos que a verdadeira revolução começa por simplesmente contar nossa própria história.”
Ler Os homens explicam tudo para mim é como entrar numa sala cheia de reflexões afiadas: a autora americana Rebecca Solnit junta uma sequência de ensaios que se cruzam como lâminas bem temperadas. A peça que dá nome ao livro transformou-se, nas rodas feministas e na cultura popular, na pedra fundamental do que hoje chamamos de mansplaining — esse hábito irritante (e às vezes perigoso) de explicar algo a uma mulher como se ela nunca tivesse ouvido falar no assunto, mesmo quando ela é a autoridade no tema .
Solnit começa narrando sua própria história — um homem em uma festa explica longamente um livro que ela mesma escreveu, convencido de que sabe mais sobre aquilo do que a própria autora. Essa anedota irônica abre a porta para uma análise mais visceral do apagamento e descrédito que tantas mulheres enfrentam cotidianamente . Não é só uma crítica pontual: é o primeiro fio de um tecido que desenrola temas maiores de poder, voz e desigualdade.
O que Salta aos olhos (e ao coração) é como Solnit vai além de um único episódio. Ela expande sua lente para violência, cultura e história, explorando desde como a voz das mulheres foi historicamente suprimida até como a sociedade absorve e normaliza a desigualdade em diferentes escalas. Em ensaios como “A guerra mais longa” e “Cassandra entre os idiotas”, ela lembra com clareza que a violência contra mulheres — em suas formas mais brutais e mais sutis — é parte de um sistema que não se desmonta sem compreensão profunda e coragem para falar .
O ritmo do livro não é o de um romance, claro — é mais como caminhar por uma galeria de espelhos que refletem traços do mundo real que a gente sabia que existiam, mas talvez não havia nomeado tão precisamente. A escrita de Solnit é elegante e provocadora; a autora consegue ser ao mesmo tempo irônica, técnica e liricamente contundente, convidando o leitor a sentir a urgência do que ela descreve sem perder o fio argumentativo.
Se eu dei quatro estrelas é porque, embora o impacto conceitual seja forte e essencial, a estrutura em ensaios soltos nem sempre flui como uma narrativa única — às vezes parece que estamos mudando de sala no meio de uma conversa que ainda estava esquentando. Mesmo assim, é um livro que reverbera depois que você fecha a capa.
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