Resenha Salto - Clara Amorim
- há 5 dias
- 2 min de leitura

Quando a poesia mergulha nas memórias e nos atravessa
Minha nota: ★★★★☆
Autora: Clara Amorim
Gênero: Poesia / Literatura brasileira contemporânea
Editora: Curva
Páginas: 112
Ideal para: quem gosta de poesia que conversa com a memória, com o corpo e com a experiência feminina; leitores que apreciam textos sensíveis sobre família, tempo e identidade.
Antes de começar...“Foi uma leitura que me lembrou que mergulhar em si mesma também é um tipo de coragem.”
Tem livros que contam uma história. Outros, como Salto, de Clara Amorim, parecem mais um movimento interno — um mergulho lento nas águas da memória. Publicado pela Companhia das Letras, o livro se constrói como uma travessia poética que nasce de anotações em um diário de natação e se desdobra em poemas, fragmentos narrativos e lembranças familiares.
A imagem da água atravessa todo o livro. Nadar, mergulhar, respirar fundo antes do salto: esses gestos físicos se transformam em metáforas delicadas para falar de crescimento, identidade e passagem do tempo. A narradora nos conduz por reflexões íntimas enquanto observa o próprio corpo em movimento — e, ao mesmo tempo, revisita histórias de mulheres da família que aparecem como ecos, presenças e fantasmas afetivos.
Não há exatamente personagens no sentido tradicional. O que existe são vozes, lembranças e figuras femininas que emergem aos poucos, compondo um mosaico de experiências. Mães, avós e outras mulheres surgem como camadas de memória, lembrando que nossa história raramente começa em nós mesmas. Esse diálogo com o passado dá ao livro uma força silenciosa e emocional.
Clara Amorim escreve com uma delicadeza que impressiona. Seus poemas são curtos, mas carregados de imagens precisas — quase como pequenas ondas que batem e recuam, deixando algo na areia. Há uma atenção especial ao corpo, ao impacto das quedas e ao risco envolvido em cada salto. Porque crescer, aqui, nunca é um gesto sem consequências.
Ao longo da leitura, fica claro que Salto é também sobre coragem. Sobre a coragem de olhar para dentro, de atravessar o tempo e de aceitar que toda travessia deixa marcas. A água, nesse sentido, se torna símbolo de transformação: o lugar onde se aprende a respirar diferente.
Se você gosta de poesia contemporânea brasileira que mistura intimidade, memória e reflexão sobre a experiência feminina, Salto é uma leitura que vale o mergulho. É um livro pequeno em tamanho, mas daqueles que ficam reverberando dentro da gente.






Comentários