Escrever, insistir e rir de si: uma crônica leve sobre o processo de escrita
- Mih Moraes

- há 3 horas
- 2 min de leitura
Escrever é um esporte radical praticado em silêncio.
Você senta, abre o caderno (ou o arquivo em branco, essa entidade mal-assombrada), respira fundo e pensa: agora vai. Spoiler: não vai. Pelo menos não do jeito bonito que você imaginou no banho, quando a frase veio inteira, com ritmo, metáfora e final impactante — e você, claro, não anotou.
A escrita começa sempre arrogante. Ela chega dizendo “relaxa, eu sei o que estou fazendo”. Cinco minutos depois, você está encarando a tela como quem encara uma geladeira aberta às três da manhã: procurando alguma coisa, sem saber exatamente o quê, mas certo de que não é isso que está aí.
Escrever é também negociar com o próprio cérebro.— Vamos escrever só um parágrafo.— Tá. Mas sem pressão.— Sem pressão nenhuma.(Três linhas depois)— Isso tá horrível.— Calma, é rascunho.— Mas eu sei que tá ruim.— Ninguém mais sabe.— Ainda.
E aí entra a parte mais curiosa: a gente continua. Mesmo achando ruim. Mesmo achando torto. Mesmo com aquela sensação de que todas as pessoas do mundo escrevem melhor — inclusive aquela que comentou “amei ” num post qualquer e agora resolveu lançar um livro.
Escrever é insistir. É escrever para descobrir o que você pensa, não para provar que pensa bem. É tropeçar em frases feias até, com sorte, tropeçar numa frase honesta. E quando ela aparece… ah, quando aparece… dá vontade de chamar alguém da casa só pra dizer: olha isso aqui, como se fosse um bebê, uma planta que finalmente vingou ou um bolo que cresceu.
Mas não se iluda: no dia seguinte, você vai reler e pensar “quem foi que escreveu isso?”. Spoiler dois: foi você. Em dias diferentes. Com humores diferentes. Com cafés diferentes.
Escrever também tem essa coisa linda de ser profundamente inútil aos olhos do mundo e absolutamente vital para quem escreve. Ninguém pediu aquele texto. Ninguém precisava daquela crônica. Mas você precisava escrever. E isso, convenhamos, já é motivo suficiente.
No fundo, escrever é conversar consigo mesma sem interrupção. É organizar o caos com vírgulas. É rir de si, reclamar do mundo, fingir que tem controle sobre alguma coisa. É falhar em público, às vezes. Em privado, quase sempre.
E mesmo assim — veja só — amanhã você volta. Abre o caderno. Enfrenta o arquivo em branco. Diz “agora vai”. E vai. Meio torto. Meio engraçado. Meio verdadeiro.
Que, no fim das contas, é o único jeito que vale a pena escrever.









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