Resenha Uma delicada coleção de ausências de Aline Bei
- Mih Moraes

- 14 de jan.
- 2 min de leitura

Um romance que dobra o tempo das gerações
Minha nota: ★★★★☆
Autor: Aline Bei
Gênero: Romance literário / Ficção contemporânea
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 288
Ideal para: quem aprecia narrativas sensíveis sobre relações familiares, memória, ausência e cuidado feminino.
Antes de começar… “Um livro que parece um espelho: a casa de Belva é pequena, mas o eco das vidas ali contidas é imenso.”
Entrar na prosa de Uma delicada coleção de ausências é como ficar à beira de uma fogueira onde cada chama é um pedaço de vida: às vezes quente, às vezes desesperadamente luminosa, sempre essencial. Aline Bei, reconhecida por trazer sensibilidade quase poética às dores e belezas do cotidiano, mergulha aqui na intimidade de três mulheres que compartilham um lar modesto em Belva, mas carregam mundos inteiros em seus corpos e lembranças.
Laura é a neta que vai deixando a infância para trás entre brincadeiras, pequenas descobertas e aquele sentimento de “tudo está mudando sem permissão”. Margarida, sua avó, sustenta a casa lendo mãos numa feira de antiguidades — gesto que é ao mesmo tempo trabalho e ritual de cuidado. Quando Filipa, a bisavó, regressa à vida das duas carregando caixas, histórias mal resolvidas e uma amargura antiga, a rotina cuidadosamente construída começa a desmoronar, obrigando cada personagem a confrontar ausências que nunca foram totalmente nomeadas.
O que Bei faz aqui é olhar para o feminino em sua totalidade: ela vê os corpos que crescem e envelhecem, as frustrações que se repetem como refrão e as forças invisíveis que nos impulsionam a amar mesmo quando dói. A chegada de Filipa não é apenas o influxo inesperado de uma presença física, mas uma ruptura no ritmo silencioso da casa — como se o tempo inteiro estivesse guardando seus próprios segredos, e agora estivesse exigindo ser ouvido.
Se eu tivesse que apontar um lugar onde a narrativa mais me cortou por dentro, seria na maneira como Bei descreve essa convivência forçada entre gerações: ali, as pequenas tensões do cotidiano se tornam janelas para as grandes questões da vida — o abandono, o cuidado, a identidade e o peso de quem fomos e quem ainda podemos ser. Mesmo com sua prosa tão delicada quanto firme, há momentos em que a história parece respirar pela própria linguagem.
Por isso, dei quatro estrelas: Uma delicada coleção de ausências é uma obra que pulsa com o ritmo da vida real, com personagens que não se moldam a uma perfeição romântica, mas se mostram cheios de fissuras e luz. É um dos meus favoritos justamente porque Bei nos convida a olhar de frente — sem medo — para aquilo que muitas vezes preferimos evitar: as fissuras que nos fazem humanos.
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