Resenha Vamos comprar um poeta de Afonso Cruz
- Mih Moraes

- 14 de jan.
- 2 min de leitura

Uma fábula delicada sobre o que acontece quando a arte vira luxo
Minha nota: ★★★★
Autor: Afonso Cruz
Gênero: Ficção contemporânea / Alegoria literária
Editora: Dublinense
Páginas: 96
Ideal para: quem gosta de livros curtos, simbólicos, que cutucam o capitalismo, a educação e o lugar da arte no mundo — tudo com ironia, doçura e inteligência.
Antes de começar…“Um livro pequeno, mas com ideias grandes o bastante para bagunçar a forma como olhamos para o valor das coisas — e das pessoas.”
Vamos comprar um poeta é uma dessas leituras que começam quase como uma brincadeira e terminam como um soco filosófico bem dado, porém educado. Afonso Cruz constrói uma fábula moderna em que sentimentos, palavras e arte perderam completamente o valor econômico — e, portanto, social. Nesse mundo, o que importa é o que pode ser medido, pesado, vendido.
A história é narrada pelo olhar de uma criança que vive em uma família “bem ajustada” a esse sistema. Pessoas compram ações, números e estatísticas como quem coleciona sonhos. Poetas? Artistas? Tornaram-se itens exóticos, quase inúteis. Até que essa família decide comprar um poeta — não por amor à poesia, mas como quem adquire um objeto curioso para a casa.
E é aí que o livro começa a florescer.
O poeta, silencioso e observador, vai pouco a pouco desorganizando aquela lógica fria. Não por discursos inflamados, mas pela simples existência da poesia. Pela palavra que não serve para nada prático — e justamente por isso, serve para tudo. A criança narradora, em especial, passa a enxergar o mundo com outros olhos, abrindo frestas de sensibilidade onde antes só havia cálculo.
Afonso Cruz escreve com uma delicadeza quase enganosa. O texto é simples, acessível, mas carregado de camadas. É uma crítica afiada ao utilitarismo extremo, ao esvaziamento da educação, à forma como a sociedade ensina a desprezar aquilo que não gera lucro imediato. E faz isso sem jamais soar panfletário.
Li devagar, mesmo sendo curto. Porque cada frase pede pausa. Cada metáfora pede eco.
Vamos comprar um poeta não tenta responder tudo. Ele provoca. Incomoda. E lembra, com suavidade, que um mundo sem poesia talvez até funcione — mas não vive.
O livro está disponível no nosso cantinho da Amazon, e cada compra por lá também fortalece o trabalho independente do blog. :)









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