Dona Impostora: Manual Prático da Farsa (ou Quase)
- há 3 dias
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Tem um momento muito específico em que a síndrome da impostora aparece. Não é quando a gente erra. Não é quando a gente falha. É justamente quando dá certo.
Você entrega um trabalho lindo. Recebe elogio. Fecha parceria. Publica texto. Alguém diz: “isso aqui é muito bom”. E, ao invés de agradecer com a tranquilidade de quem sabe o que fez, você pensa: pronto, descobriram que eu não sei nada.

É quase cômico. Se não fosse cansativo.
A síndrome da impostora não chega fazendo escândalo. Ela não bate panela. Ela cochicha. Ela senta do seu lado na beira da cama e pergunta, com aquela voz mansa e venenosa: “Você acha mesmo que merece estar aqui?”
E o mais curioso é que ela só aparece para quem está fazendo. Nunca vi impostora atormentar quem não tenta. Ela adora gente competente, dedicada, criativa. É uma fã tóxica da excelência.
Outro dia, depois de uma conquista que eu esperei por anos, me peguei pensando que talvez tivesse sido sorte. Sorte. Como se as madrugadas acordada, os cursos pagos em parcelas, os textos reescritos dez vezes e os nãos engolidos em seco fossem obra do acaso. Como se o esforço tivesse sido um figurante irrelevante no próprio roteiro.
A síndrome da impostora é uma roteirista cruel: ela apaga nossa história e escreve uma versão mais confortável para o medo.
Mas há algo que tenho aprendido e não sem resistência. Essa voz não é verdade, é mecanismo de sobrevivência. Para muitas de nós, principalmente mulheres, e principalmente mulheres que sempre precisaram provar duas, três, dez vezes mais, a dúvida virou estratégia. Duvidar antes que duvidem da gente. Diminuir antes que diminuam. Se encolher para não incomodar.
Só que isso cobra um preço alto.
Viver se sentindo fraude enquanto se é profundamente capaz é como morar numa casa bonita e insistir em dormir no corredor. A estrutura está ali. O teto aguenta. Mas você não se permite ocupar o espaço.
E ocupar é verbo perigoso. Ocupa tempo. Ocupa voz. Ocupa destaque. Ocupa poder.
Talvez a cura, ou pelo menos o começo dela, não esteja em silenciar completamente essa voz. Talvez esteja em responder. Olhar para o espelho e dizer: “Eu estou aqui porque trabalhei para isso. Porque estudei. Porque persisti. Porque mereço.”
Sem pedir desculpa pelo próprio brilho.
No fim das contas, a grande ironia é essa: a única impostora na sala é a síndrome, não você.
E toda vez que você continua, mesmo com medo, ela encolhe um pouco.
Talvez coragem não seja ausência de dúvida. Talvez seja produzir, publicar, falar, criar, apesar dela.
E isso, convenhamos, não tem nada de fraude.






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