Nem toda leitura precisa SER INESQUECÍVEL
- há 2 dias
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Tem uma expectativa curiosa rondando os livros hoje em dia: a de que cada leitura precise chegar à nossa vida vestida de guru espiritual. Como se a função de um romance fosse reorganizar os móveis da alma, revelar o propósito da existência e ainda nos ensinar a fazer pão de fermentação natural nas horas vagas.

Parece que não basta gostar de um livro. Não. Ele precisa "mudar tudo". Precisa nos deixar olhando para o teto às três da manhã, repensando cada escolha feita desde a terceira série. Precisa ganhar post-it colorido, frase sublinhada e um depoimento emocionado dizendo: "depois desse livro, nunca mais fui a mesma".
E eu fico imaginando o desespero dos livros diante dessa pressão.
O pobre do romance policial só queria descobrir quem matou o coronel. A fantasia queria apresentar um dragão simpático. A comédia romântica estava ali, humilde, tentando arrancar um sorriso no ônibus. Mas não. De repente, todos foram promovidos a terapeutas, coaches existenciais e guias de iluminação interior.
É uma responsabilidade grande demais para algumas centenas de páginas.
A verdade é que, ao longo da vida, tive leituras inesquecíveis. Livros que me atravessaram, que mudaram a maneira como enxergo o mundo, que deixaram marcas permanentes em quem sou. Eles existem. E que bom que existem.
Mas também tive leituras que foram apenas companhia.
Livros que chegaram numa semana cansativa e me deram quarenta minutos de silêncio antes de dormir. Histórias que me distraíram de uma preocupação insistente. Personagens que sentaram ao meu lado enquanto eu tomava café. Leituras que não provocaram epifanias, não renderam citações sublinhadas e nem entraram para a lista dos favoritos da vida.
Ainda assim, foram boas.
Porque nem toda amizade nasce para durar décadas. Algumas pessoas aparecem numa fase específica, compartilham uma conversa gostosa, nos fazem rir na fila do mercado e seguem o caminho delas. E ninguém chama esse encontro de fracasso.
Com os livros, talvez a gente pudesse praticar a mesma gentileza.
Nem toda leitura precisa ser inesquecível para ter valido a pena.
Às vezes, ela só nos ofereceu descanso. Às vezes, divertiu. Às vezes, ocupou um espaço que poderia ter sido preenchido pela ansiedade. Às vezes, nos lembrou que ainda somos capazes de nos encantar com uma boa história.
E isso já é bastante.
Talvez até mereça cinco estrelas.
Porque, sinceramente, num mundo que exige de nós produtividade, propósito e transformação o tempo inteiro, encontrar um livro que apenas nos faça companhia pode ser uma pequena revolução.
E há dias em que tudo o que a gente precisa não é sair da leitura transformada.
É simplesmente fechar o livro pensando: "Gostei. Foi bom passar um tempo com você."
E ir viver a vida um pouquinho mais leve por causa disso.






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